A vida das lagartas

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Era coisinha de jardim, ninguém se importava com ela e ela também não se importava com muita coisa. Era gordinha e miúda, gostava mesmo era de comer folhas e passear pelos galhos. Falava pouco e arrastava suas águas deixando um rastro para não perder o rumo de volta.

Nos dias de sol, levava sombrinha para não torrar a pele verde clara e espiava com atenção para poder se esquivar de pássaros famintos, não que o temor de virar comida de pós-ovinho a tornasse mais aguçada. Adorava mesmo era passear pelos coqueiros e ramalhetes, sem ligar para as línguas amoladas dos outros insetos, já havia se acostumado em ser diferente e em ser tema de quem não tem assunto. Dentre os irmãos foi ela a mais vivida, o bandinho nem teve tempo de deixar de ser pupa, estiveram logo tomando rumos com diversos desenlaces.

Como é da natureza delas, cabe logo chegarmos ao fato, pois as pobres vivem questão de dias, sortudas completam uma semana, então para adequarmos ao passo da miúda, nós pulamos as suas preferências particulares a fim de chegar logo ao assunto. O ocorrido começou com a fome sem fim. A miúda, já boa de garfo, foi tomada por apetite incessante e misterioso, do tipo de preocupar mãe e agradar vó, até pedra a bichinha comeu para distrair o estômago dos pensamentos de feijoada. Diz que se meteu em churrasco de festa da cumeeira para o qual não foi convidada, partiu para o Centro-oeste para degustar a vegetação do cerrado e até as comidas do Japão ela lambiscou. Não tinha o que bastasse e junto com a fome, veio tal de crescer para tudo quanto é direção e ângulo.

A pequena tomou formato novo, agora mais corpulento e vigoroso. Depois da novidade do apetite, ela se movia como sanfona pelo mato e já não era qualquer bicho que tinha coragem de afrontar a segura de si. Percorria vários cantos, entretanto evitando países que a tem como iguaria de cardápio, claro, de boba, a nutrida não tinha nada… E era um tal de pensar em macarronada, salada de rabanete, charutinho de uva que a população do jardim tratou de garantir a parte que lhes cabia das folhas mais novinhas, caso a escassez de alimentos imperasse naquelas bandas, coisa bastante provável pelo andar da sanfoninha.

Acontece que o segundo caso ocorreu, logo depois da volta de Quicé lá nas bandas da Bahia. Do tamanho do apetite, veio o sono. Ela chegou e nem desfez a malinha, foi logo pegando a coberta, se enrolando sobre um graveto até o sono a tomar por completo. Passaram-se alguns dias e a bichinha num nada de acordar. Foi motivo, mesmo embrulhadinha, de ser conversa dos outros, da bicharada ociosa que reparava o aconchego da coisinha ensimesmada. Parecia que tinha virado pedra, nem o cheiro fresco da rabanada da vizinha a fez abrir os olhos. Era só um mergulhar-se em si, o que ela queria saber.

Mas como toda a coisa do mundo, ela também precisava esticar-se. E foi assim que a terceira coisa aconteceu. Foi no quentinho do raio de sol que o esticar-se rompeu a casquinha, obviamente já não era mais pedra, na verdade já nem era mais ela!

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